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[Catálogo da exposição]

Em Tudo que é sólido se desmancha no ar, Marcela Cantuária aborda dois conceitos: a ruína e a transformação. Os tanques militares e o contexto retratado do pós-guerra denunciam a destruição inerente às políticas imperialistas e ao sistema capitalista, enquanto, transversalmente à tela, a construção da linha de trem diz sobre a imaginação de um futuro; futuro esse engendrado pelo povo que, com suas mãos, articula as peças do novo e avista o destino utópico desde as zonas mais cinzentas.

No decorrer de sua pesquisa teórica e poética, baseada em registros pessoais e históricos,  tais como fotografias, manifestos e jornais, Marcela recolhe imagens de contextos de guerras revolucionárias e situações de exploração estrutural através do trabalho produtivo, bem como, do trabalho reprodutivo – imagens que acionam as tensões dialéticas indivíduo/coletividade e o capitalismo /socialismo. Assim, a artista capta imagens-instantes para articular uma outra narrativa de passado, presente e futuro – tempos que constantemente se embaralham em suas telas.

Através das obras aqui expostas, entende-se que o processo revolucionário de transformação do instituído não supõe uma tabula rasa linear da história. Em sua articulação dos tempos, Marcela revela ser necessário, a partir do presente, suturar o passado sem cessar a memória e liberar o tempo presente para a construção do futuro.

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A sutura e a liberdade

“Junta as partes nodosas dos dias:/ Soa a flauta, e o mundo está liberto/ Soa a flauta, e a vida se recria.”

A Era | Ossip Mandelstam

Em sua análise de A Era (1923) de Ossip Mandelstam, Giorgio Agamben fala de um tempo-fera — o tempo do poeta, do contemporâneo — que tem o dorso fraturado. O poeta (o artista) localiza-se na fratura e mira, de dentro, a fera fraca e tolhida – ou o tempo descontinuado; sua tarefa é soldar as vértebras, suturar o tempo histórico coletivo. Atuar na fratura significa, portanto, entendê-la como lugar de compromisso e encontro entre os tempos, em uma relação singular que apreende a articulação de temporalidades de forma deslocada, inadequada às pretensões regressistas. O artista é, então, quem é capaz de ler a história de forma inédita.

Minha era, minha fera, de Marcela Cantuária, também trata desse tempo cindido. No contemporâneo, a artista identifica sintomas acerca das relações de pátria e fronteira: a onda migratória na Europa, a questão Palestina, a crise na Venezuela e as políticas anti-imi-gração de Trump. Na tela, os refugiados buscam o céu, enfrentam o oceano, tornam-se clandestinos, ocupam a extremidade de uma grade sustentada por militares. É o poder militar-imperialista que mantém as barreiras e marca oposição aos corpos no topo da grade – corpos em fuga da violência, da guerra e da crise política em seus países de origem.

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A ação da artista de suturar as vértebras do tempo pode ser também entendida como parte de um processo revolucionário. Suturar o passado é reparar as desigualdades fruto das opressões estruturais às quais os grupos minoritários estão subjugados; é cicatrizar as feridas das ditaduras militares latino-americanas; é condenar os matadores e mandantes; e é memorar as vítimas. Marcela, consciente do seu compromisso, põe em prática essas ações em O Sul nunca morre ou Onde se cai uma heroína, levanta-se um povo; Fantasmas da esperança; e Futuro do pretérito – por Marielle Franco, Matheusa, Mestre Moa do Katendê e tantas outras e outros, presenças da resistência.


Em Minha era, minha fera, vê-se uma fuga que é abandono e evasão. Contudo, é possível pensar uma fuga-brecha, uma busca por clareiras. Em Gigantes pela própria natureza e À revelia das grandes cidades, a mata figura o exercício da liberdade e a possibilidade de um caminho para reconstrução. “A luta é uma greta no muro do sistema” comunica uma sentença zapatista. É preciso, portanto, criar as brechas, talhar as gretas e pôr-se em liberdade, para assim desembaraçar o tempo presente e liberá-lo para a invenção de um futuro. O muro não é indestrutível, afinal, tudo que é sólido se desmancha no ar.

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