>

Marcela Cantuária apropria-se de imagens de backgrounds diversos, elaborando uma contra-narrativa, com interesse de evidenciar o florescer de outro futuro. Sua proposição evidencia signos que partem da ebulição de temas que envolvem múltiplas perspectivas, tecendo aproximações entre esferas sociais, associações políticas e anseios oníricos. Seus trabalhos estabelecem pontos de contato entre temporalidades e imaginários acerca do protagonismo político feminino e de disputas simbólicas sobre o acirramento da luta entre as classes sociais. Ainda que haja muitas metodologias que auxiliem na aproximação e elaboração reflexiva acerca da linguagem pictórica, guiado por interesses epistêmicos, adotaremos uma abordagem da sociologia da imagem, como proposta pela socióloga boliviana e ativista descendente Aymara, Silvia Rivera Cusicanqui (1949), que propõe uma prática teórica, estética e ética que não reconheça fronteiras entre criação artística e reflexão conceitual e política [1]. A herança de condutas hegemônicas e as configurações dos sistemas de poder são temáticas presentes nos trabalhos da exposição La larga noche de los 500 años. Nesse sentido, destacamos a pesquisa empreendida pela artista, para além de uma proposta compositiva, formal ou estética, encarando suas composições como resultados de uma elaboração conceitual em consonância com a imaginação política.

larga-noche-011.jpg

Cantuária recusa uma identificação com a narrativa oficial e opta por uma leitura a contrapelo, instrumentalizando pictoricamente imagens/monumentos utópicos insurgentes, integrada à história da exclusão social, da exploração do trabalho e da degradação ambiental. As questões vinculadas à exploração dos recursos naturais, emergem com máxima urgência, haja vista a expansão das políticas parasitárias para com os recursos naturais planetários. Desde a antiguidade os astros serviam como guia geográfico e ético. Paralelos podem ser traçados entre os interesses da artista e do pesquisador Victor Wallis, que afirma: o único futuro habitável é ecossocialista [2], reconhecendo que "as expressões mais radicais de conscientização ambiental" [3] são originadas pelos povos do Sul global. Assim, as lideranças camponesas e indígenas tornam-se alvo de distintos processos de aniquilação e silenciamento, devido à perseguição das lutas populares opostas aos interesses extrativistas de conglomerados internacionais.

La larga noche de los 500 años (2019) sobrepõe distintas camadas de repertórios históricos, uma pintura plasmada de anseios éticos de superação das opressões vigentes. A base de sua composição é uma gravura presente no livro L'Atmosphere: Météorologie Populaire (1888), de Camille Flammarion, ilustração de um missionário medieval que afirma a existência de um lugar onde céu e terra se encontram. Esta gravura é hibridizada com o conceito andino de pachakuti, palavra quechua e aymara em que pacha significa tempo, espaço ou mundo, e kuti significa agitação, revolução. Ideia que defende um reequilíbrio do mundo através de eventos catastróficos ou de renovação. Em Pachakuti: The historical horizons of internal colonialism (1991), Cusicanqui interpreta que parte da nação considera a reforma apenas como uma disputa pelo poder entre partidos políticos, atravessando assim um momento de cegueira que revela aspectos sombrios de nossa atualidade. Nesse contexto de acirramento e

disputa, Cusicanqui alerta que talvez o tempo da guerra não esteja longe [4]. Embate que é elemento central na pesquisa da artista, que abre múltiplas possibilidades de acesso a variados sistemas e narrativas. Ao romper com a linearidade cronológica, Marcela abandona as limitações da física clássica, oferecendo uma perspectiva baseada em simultaneidades não-lineares. Insere-se assim em uma larga tradição de artistas que foram capazes de perceber a dolorosa fratura psíquica que a experiência colonial introduz na forma de silêncio social [5]. Em La larga noche de los 500 años, uma constelação de signos e retratos rasgam o céu, reivindicando a memória de combatentes, criando assim, uma espécie de panteão da insurgência latino americana. Outros dois trabalhos da exposição dão destaque às figuras de Berta Cáceres, ativista ambiental hondurenha e de Lúcia de Souza "Sônia", guerrilheira brasileira integrante da Guerrilha do Araguaia.


Segundo antigas crenças indígenas, após a longa noite de 500 anos, iniciada com a chegada dos europeus ao continente, o mundo passaria por uma reordenação na qual emergirá uma nova ordem, o alvorecer de um tempo benéfico e de glória para os povos. Cantuária propõe o Caboclo, de Jean-Baptiste Debret, como um paladino Pachakuti que mira a lua, anunciando a chegada de um reordenamento social e místico. Nesse sentido, vale considerar a frase título da obra que evoca também o discurso do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do exército Zapatista proferido em 1994. Não à toa que o deserto do Atacama aparece na composição, simultaneamente cindido em dois tempos distintos, representado como um dos lugares mais secos do mundo que funcionou como espaço de despojo das violências da ditadura e também palco da rara floração do deserto conhecida como "milagre do Atacama". Esse local, anteriormente imerso na poeira do passado, é desordenado por esse imprevisível fenômeno natural, transfigurando-se em sublimes jardins floridos. As guerrilheiras do Araguaia, VPR, ALN, KPD, Polop, as Mujeres del Cuá e as Mujeres de Calama são presenças que subverteram a lógica do autoritarismo e da subjugação. Então, diante de nosso contexto político atual, La larga noche de los 500 años emerge da urgência da articulação de uma poética da memória, manipulando signos como estratégia política, em prol da emancipação do imaginário.

larga-noche-01.jpg
larga-noche-05.jpg
larga-noche-08.jpg
larga-noche-07.jpg

[1] Originalmente: "una práctica teórica, estética y ética que no reconozca fronteras entre la creación artística y la reflexión conceptual y política". Rivera Cusicanqui, Silvia. Sociología de la imagen: ensayos . - 1a ed. - Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Tinta Limón, 2015, p.27.
[2] Victor Wallis. Red-Green Revolution: The Politics and Technology of Ecosocialism. Political Animal Press: Chicago, 2018.

[3] Originalmente: " the most radical expressions of environmental awareness". Citado por Cy Gonick em "Exploring Ecosocialism as a System of Thought", Canadian Dimension, Vol. 44 No. 5, Sept/Oct 2010.
[4] Originalmente: "Perhaps the time of war is not far off". In: Silvia Rivera Cusicanqui, Pachakuti: The historical horizons of internal colonialism, 1991.

[5] Originalmente: "que fueron capaces de percibir la dolorosa fractura psíquica que introduce la experiencia colonial, bajo la forma del silencio social". Rivera Cusicanqui, Silvia. Sociología de la imagen: ensayos . - 1a ed. - Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Tinta Limón, 2015, p.82.